sábado, 11 de agosto de 2018

FOTOGRAFIAS RARAS E IMAGENS DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL


      Um jantar brasileiro (1827). Jean Baptiste Debret.

      O Brasil foi o último país do continente americano a extinguir a escravidão. Em 13 de maio de 1888 a princesa Isabel assinou a Lei Áurea.
      Foram mais de três séculos, e o Brasil foi o destino de boa parte do tráfico de africanos no mundo. Quase cinco milhões de pessoas foram trazidas para o País. 
      O imperador do Brasil Dom Pedro II, manifestando um grande interesse pela fotografia, contribuiu para que a fotografia ganhasse um amplo espaço no registro do cotidiano brasileiro. E a escravidão também foi amplamente documentada pelos fotógrafos do século XIX. Na postagem de hoje apresentamos algumas imagens do cotidiano de escravos e escravas e também os instrumentos utilizados para torturar os cativos no Brasil. 




Escravos conduzindo  um homem na liteira. Salvador -BA, 1860. Acervo IMS.


Dois escravos conduzindo uma senhora branca  na liteira, Salvador -BA, 1860, Acervo do Instituto  Moreira Salles. 









Escrava vendedora com os filhos. Acervo do Museu Municipal de Cachoeira do Sul-RS.



Retrato de homem da etnia “Mina Mondri”, de Augusto Stahl. Rio de Janeiro, c. 1865. Acervo do The Peabody Museum of Archaeology & Ethnology. 




Foto de moça da etnia “Mina Ondo” com turbante e colar. De Augusto Stahl. Rio de  aneiro, c. 1865. Acervo do The Peabody Museum of Archaeology & Ethnology. 



Retrato de escrava babá brincando com criança.Foto de Jorge Henrique Papf. Petrópolis (RJ), 1899. Pertence à coleção George Ermakoff.



Fotografia da escrava Florinda Ana do Nascimento. Acervo do Instituto Feminino da Bahia, Museu do Traje e do Têxtil. S/ data.



Escravos em uma Casa Grande na Bahia em 1870. Fonte: livro Escravidão em Alagoas, de Félix Júnior, Maceió, 1974.




Mulheres escravas preparam comida durante a colheita do café no século XIX / Imagem: Victor Frond - Litografada pelos artistas de Paris, 1861, Paris Lemercier, Imprimeur - Litographe - Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin - Reprodução Renato Parad








Escravo sapateiro. Acervo IMS










Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles, escrava com seu filho | Salvador, BA, c. 1884




Marc Ferrez. Escravos na colheita de café, c. 1882. Vale do Paraíba, RJ / Acervo IMS 



Escravos na colheita do café Rio de Janeiro, RJ, c. 1882. Marc Ferrez / Coleção Gilberto Ferrez / Acervo Instituto Moreira Salles


Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles, Partida para colheita do café | Vale do Paraíba, c. 1885


Escravos em terreiro de una  fazenda de café. Vale do Paraíba, c. 1882. Marc Ferrez / Coleção Gilberto Ferrez / Acervo Instituto Moreira Salles


Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles. Primeira foto do trabalho no interior de uma mina de ouro | Minas Gerais, 1888


Foto da Fazenda Quititi, no Rio de Janeiro, 1865. Observa-se uma criança branca brincando com seu brinquedo enquanto as crianças escravas descalças e com roupas em farrapos brincam entre si. Acervo IMS.



Marc Ferrez/ Coleção Gilberto Ferrez/ Acervo Instituto Moreira Salles. Escravos na colheita de café | Vale do Paraíba, c. 1882



Lavagem do ouro, Minas Gerais, 1880. (Foto: Marc Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles).



Retrato de ama negra com criança branca presa às costas. Cartão postal de Rodolpho Lindemann. Salvador, [década de 1880]. Pertence à coleção Apparecido Jannir Salatini. 





Quitandeiras escravas em rua do Rio de Janeiro, 1875(Marc Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles - (IMS).


Palmatórias: A palmatória era um instrumento de punição e castigo feita de madeira. Consistia em dar pancadas  nas palmas das mãos estendidas dos escravos. Ela tinha função de provocar violentas equimoses e ferimentos no epitélio das mãos. Era aplicada preferencialmente em mulheres e crianças e para punir faltas consideradas pequenas.


Loja de SapateiroAquarela de J. B. Debret 1820/30



"Escravidão no Brasil", de Jean Baptiste Debret .



O tronco era um dos mais famosos e cruéis castigos usado nos escravos considerados 'rebeldes'. O indivíduo tinha a roupa arrancada e era preso por algemas e correntes em um tronco reto de pouco mais de 2 metros de altura. A partir daí, uma 'plateia' se formava em torno do "espetáculo" e a tortura começava. Normalmente era o feito ou o capataz que realizava a punição. Com uma chibata, o indivíduo preso ao tronco tinha suas costas e pernas dilaceradas. Quando preso no tronco, o escravo punido levava de 20 até 100 chicotadas. Muitos escravos morriam durante o castigo, e os que sobreviviam eram obrigados em banhar-se na salmoura (uma banheira com uma solução de água e sal que exercia uma aceleração da cicatrização dos ferimentos, e claro, uma dor inimaginável).
Escravo recebendo chicotadas no tronco





Uma família  de brancos brasileiros  e suas  escravas domésticas, 1860. Pernambuco. 

Escravos celebram um congado (um ritual cristão com elementos nativos africanos) em uma fazenda na província de Minas Gerais, Brasil.1876.Lago, Bia Corrêa do; Corrêa do Lago, Pedro. Coleção Princesa Isabel: Fotografias para o capítulo XIX . Rio de Janeiro: Capivara, 2008.








Pau de Arara: é uma barra de ferro que é atravessada entre os punhos amarrados e a dobra do joelho, deixando o corpo do torturado pendurado a cerca de 20 ou 30 centímetros do chão. Nessa posição que causa dores terríveis, o escravo ada sofria pancadas por todo o corpo. 







Ferro de Marcar: era forjado em ferro, poderia carregar as iniciais dos donos, ou a letra F de fugitivo. Ele era colocado em brasa quente e logo em seguida posto contra a pele do escravo.







Berlinda: Utilizadas nas fazendas brasileiras para imobilizar e castigar escravos fugitivos.





A caixinha para as mãos era usada como punição aos furtos leves praticados por domésticos. Prendendo geralmente a mão direita, esta era ferida com pregos. Além das dores do momento, o escravo ficava com a mão inutilizada. Depois era liberado. A marca nas mãos podia servir de exemplo para outros escravos.


     Segue abaixo o link para assistir ao filme Quilombo, que aborda a escravidão no Brasil. 
https://youtu.be/pwbmkM7xQS0

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER



     Saudações.
  A minha sugestão de leitura na postagem de hoje é sobre a participação das mulheres nas guerras,  mas também do  olhar feminino sobre os conflitos armados, onde elas se viram obrigadas a participar. Um dos livros que estou concluindo a leitura e recomendo é da jornalista e escritora ucraniana Svetlana Aleksievitch.








  Em A guerra não tem rosto de mulher, de 2013, a autora discorre sobre a participação das mulheres da URSS na Segunda Guerra Mundial. De acordo com a sua narrativa a presença  feminina no conflito não se limitou a retaguarda.  Elas executaram ações como "tanquista", "atiradora de fuzil", "soldado de infantaria" etc.



      Mas a guerra que nós conhecemos tem a narração da “voz masculina”.  Como bem ressaltou a escritora "somos todos prisioneiros de
representações e sensações masculinas da guerra. Das palavras masculinas”. 



   O que mais agrada na obra de Svetlana é a relação que foi construída entre a jornalista e as depoentes. A partir dessa relação, as narrativas dessas  protagonistas, até então anônimas,  ganham um contorno do gênero na interpretação do valor da vida, família e o sentimento.    E neste sentido a escritora utilizou muito bem as entrevistas.
   Enfim, é uma leitura que oferecem uma nova visão sobre a guerra. Um olhar feminino. 
Boa leitura.



   O Historiador Tarimbeiro

quarta-feira, 27 de junho de 2018

HOLOCAUSTO BRASILEIRO






Estamos retornando com as sugestões de leituras. E nesta postagem vamos falar do livro da jornalista Daniela Arbex, publicado em 2013. 





O título parece um exagero, se comparado aos campos de concentração da Alemanha Nazista, mas quando você lê o livro, chega a conclusão de que  o título é apropriado,  diante do conteúdo narrado pela Daniela Arbex. 


O livro conta a história do Hospital Colônia de Barbacena, que foi o maior hospício do Brasil. Localizado  em Minas Gerais,  o Colônia,  como era conhecido, foi inaugurado em 1903 e chegou a brigar cinco mil pessoas. 


Em resumo,   o livro conta a "desumanização" do ser humano. A tortura física e psicológica fazia parte do cotidiano e o comércio de corpos para a faculdades de medicina era uma prática comum e lucrativa. 



Boa leitura.  

segunda-feira, 25 de junho de 2018

História & Psicologia

Saudações históricas e psicológicas.



Nossas postagens têm sido raras. Realmente tem sobrado pouco tempo. Ainda no mestrado decidimos uma nova empreitada no curso de Psicologia. Logrando êxito no ENEM de 2014, em 2015 iniciamos o curso, mas tivemos que interromper por dois semestres. Com o retorno em 2016, a situação foi evoluindo. Muitas leituras e resenhas. 


 As peculiaridades do curso exigem muita leitura, assim como o curso de História. Mas o foco é outro. 




É muito Freud, Jung, Whatson, Skinner, Sartre, Foucalt, Fanon,  Vigotski, Piaget, Reidegger, Jasper, Husserl...
 E a vida segue. 


Tem sido um privilégio acumular os conhecimentos de História com a  área de Psicologia.



Voltaremos a postar sugestões de livros  sobre guerras e conflitos, mas teremos espaço também para outros temas. Psicologia e Filosofia serão temas necessários, pois é área de interesse. 

Abraços históricos e psicológicos.

Até lá.

O Historiador Tarimbeiro

sábado, 17 de março de 2018

BBC resgata vozes e sambas esquecidos dos soldados brasileiros na 2ª Guerra





Olá. Tem sobrado pouco para novas postagens. Hoje acessei a um artigo inédito da BBC que aborda a participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial.  É longo, mas importante para os amantes do tema Segunda Guerra Mundial. 
Boa leitura.
"Aí cheguei, me aproximei do Hitler e falei assim: Seu Hitler, o senhor completamente embriagado! Um homem de cartaz na Alemanha. Por que o senhor bebe tanto assim? Aí, ele disse, 'por que eu bebo, meu amigo? Escuta só: Tornei-me um ébrio, na bebida posso esquecer/ o Mussolini, que eu amava, e que me abandonou/bombardeado pela RAF vivo a sofrer/ e não encontro um lugar pra me esconder...'"
Esse "diálogo com Adolf Hitler" é narrado por um soldado brasileiro no estilo stand-up musical, fazendo uma versão bem-humorada de O Ébrio , grande sucesso de Vicente Celentino na época, em um show de calouros gravado pelo Serviço Brasileiro da BBC na Itália em junho de 1945 com os pracinhas que aguardavam o retorno ao Brasil.
O show, um raro e precioso registro em áudio do momento em que saboreavam a vitória com um misto de alto astral e pesar pela morte de companheiros, foi registrado com auxílio de uma rara unidade móvel de gravação da BBC.
Além de gravar esse show e vários sambas compostos pelos pracinhas em pleno front, essa unidade registrou - sempre em frágeis discos de alumínio cobertos por um laque especial, já que ainda não havia gravadores portáteis de fita magnética - os sons do dia a dia dos soldados nos acampamentos, além de relatos, crônicas e mensagens a familiares.
Essas gravações, feitas pelo correspondente de guerra da Seção Brasileira da BBC, o anglo-gaúcho Francis Hallawell, com ajuda do técnico de som britânico Douglas Farley, foram resgatadas pela BBC Brasil como parte das celebrações dos seus 80 anos e estão sendo disponibilizadas ao público para marcar essas oito décadas de produção de conteúdo para o Brasil.
Historiadores e especialistas que tiveram acesso ao material ouvido pela BBC Brasil foram enfáticos ao situar sua importância.
"Foi emocionante ouvir as gravações", diz Francisco César Ferraz, professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL), com anos dedicados à pesquisa da participação brasileira na Segunda Guerra e autor de dois livros sobre o assunto - O Brasil e a Segunda Guerra Mundial A Guerra Que Não Acabou .



"Uma coisa é passar anos estudando ou lendo sobre o assunto, outra é realmente ouvir esses registros. A variedade de tópicos, de situações... têm de tudo... desde reportagens relidas por correspondentes de guerra, seleções musicais, eventos, missas, humor, personagens, serviço médico... um material fantástico. É um estímulo a outros pesquisadores."
Para Vinicius Mariano de Carvalho, professor e pesquisador do Brazil Institute do King's College, em Londres, que ajudou a BBC a recuperar esse material e está publicando um trabalho focado nas músicas compostas pelos pracinhas, as gravações de Hallawell "nos aproximam demais do que viveram esses soldados na guerra".


"O som do acampamento, da panela ao fundo, pessoas falando... é a única imagem que a gente tem do universo sonoro desses pracinhas. Esse material é extremamente importante, possivelmente o único documento sonoro que dá voz ao soldado brasileiro na Itália."
As gravações resgatadas totalizam pouco mais de quatro horas de áudio. São 12 programas de duração e temas variados com material gravado durante os oito meses de campanha militar dos 25 mil integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália.

'Cartas, pessoal!'

Parte desse material foi transmitido ao Brasil por rádio durante a guerra, como por exemplo as reportagens que mostram uma distribuição de cartas e a "hora do rancho" em um acampamento, a visita a um hospital - transmitida para o Brasil na noite de Natal de 1944 - e o registro de uma missa na Catedral de Pisa, em que mais de mil soldados e oficiais, com a presença do comandante da FEB, general Mascarenhas de Morais, cantaram o Hino Nacional.
Um dos mais curiosos é o programa com um show de variedades celebrando a vitória, realizado no clube da FEB em Alessandria, no norte da Itália, quando os soldados aguardavam o retorno ao Brasil. O programa segue a linha de shows de rádio ao vivo populares na época, com concurso de calouros, música e muito humor, e foi gravado especialmente "para as famílias (dos expedicionários) no Brasil, enquanto espera-se o grande dia do embarque".
Mas boa parte dos programas foi montada mais tarde, quando os soldados já tinham sido desmobilizados e retornado a suas cidades, como as homenagens aos três regimentos de infantaria da FEB - o 1º, também conhecido como Regimento Sampaio, baseado na então capital, Rio de Janeiro, o 6º, baseado em Caçapava (SP) e o 11º, de São João del-Rei (MG) -, recontando suas campanhas com depoimentos e dramatizações feitas no estúdio da BBC.
O material do "Chico da BBC" deu impacto às transmissões da Seção Brasileira da BBC em ondas curtas. Eram três horas diárias de transmissão, sempre à noite, no horário nobre dos anos de ouro do rádio no Brasil. Havia notícias, programas de variedades, música, radioteatro e "cerca de 15 minutos dedicados ao noticiário sobre a guerra", segundo o livro Vozes de Londres , de Laurindo Lalo Leal Filho, que conta a história da Seção Brasileira da BBC desde sua criação, em março de 1938.
 notícias que os brasileiros ouviam sobre a guerra eram traduzidas do inglês, o que, segundo Rose Esquenazi, professora da PUC-Rio e autora de O Rádio na Segunda Guerra: no ar, Francis Hallawell, o Chico da BBC , longe de ser um problema, ajudou a dar crédito ao conteúdo.
"A BBC trouxe maior equilíbrio. Falava quando um navio inglês era afundado", diz ela à BBC Brasil. "As pessoas sabiam que havia a censura do Estado Novo. Se você ouvia em outra rádio, a notícia seria mais parcial. Os brasileiros sentiam que o noticiário da BBC era mais isento."
As vozes dos combatentes brasileiros e as crônicas enviadas por Hallawell "traziam humanidade" nessas transmissões. "As pessoas queriam que a guerra acabasse, e o Chico trazia as informações lá do front, onde estavam os filhos, os maridos e os noivos", afirma Esquenazi.

'Ô Félix, tá caindo muita coisa no front?'

Hallawell, nascido em Porto Alegre e educado parcialmente na Inglaterra, falava português com um leve sotaque britânico, mas sua voz, diz Esquenazi, "tinha certa intimidade com o ouvido do brasileiro".
Apesar de muitos soldados estarem "lendo" suas falas - em particular nos programas feitos em homenagem aos regimentos de infantaria -, a impressão que fica no ouvinte é de que eles se comunicam com "Chico" de forma aberta e direta.
Para Francisco Ferraz, as gravações ajudam a traçar um perfil mais nítido dos pracinhas.
"Esse perfil é um dos pontos sobre o qual menos temos informações, a documentação da FEB não é muito pródiga nisso. Em vários momentos (nas gravações), há o cuidado de se perguntar o nome e a origem do soldado, a cidade de onde vem, o que ele fazia..."
"Nos anos 1940, o Brasil era muito diferente, tínhamos uma população pouco alfabetizada. Dados estatísticos indicam que, apesar de restrições do Exército, 6% dos soldados eram analfabetos. Quando você vê essa gente simples, que enfrentou temperaturas que nunca tinha enfrentado, nunca havia treinado para combater em montanhas - bem diferente a combate em terra plana -, vê que esses jovens pertencem ao coração do povo brasileiro, no sentido de sua extração."
Vinicius Mariano de Carvalho aponta para a riqueza "fabulosa" das gravações do expedicionários fazendo música. "Nos dá a dimensão da expressão humana musical que esses soldados estão encontrando e fazendo no meio do campo de batalha".
Hallawell e Farley gravaram 16 músicas em pelo menos quatro locais diferentes na Itália. Treze dessas canções, em sua maioria sambas e marchinhas, foram compostas por pracinhas.
"Música e guerra andam a par e passo", diz Carvalho. "Ela exerce uma função catártica incrível."
"A FEB tinha uma banda de música, formada por cerca 60 músicos. Essa banda se desmembrava em pequeno grupos para tocar em acampamentos e circular com mais facilidade. Uma delas era a orquestra de jazz, formada pelo pessoal do regimento de São João Del Rey (o 11º), quase imitando uma big bandamericana."
As orquestras militares eram comuns na Segunda Guerra. O conhecido músico americano Glenn Miller dirigiu a banda da Força Aérea americana na Europa - e morreu em um suposto acidente quando seu avião desapareceu em um voo de Londres a Paris em dezembro de 1944.
Um dos programas diz, entretanto, "ser interessante notar que os brasileiros são os únicos de todos os combatentes na Itália que escrevem suas próprias canções". Carvalho diz ser "difícil saber" se a afirmação procede, mas que os pracinhas fizeram na Itália "o que se fazia no Brasil, com incorporação de termos em italiano, com narração do cotidiano que eles estão vivendo".
"É uma rica transposição de uma vivência musical do Brasil para lá", diz o pesquisador, salientando "a grande relação de mútua troca" entre brasileiros e italianos.
Não se ouve a palavra "alemão" nos sambas. Ouve-se "tedesco" - como nos sambas Tedeschi Portare Via ou Tedesco Levante o Braço . "Ou 'paúra', em vez de 'medo'."
"Há um fator que não podemos negligenciar dessa união, que é o catolicismo. A Itália é extremamente católica, o Brasil é eminentemente católico. É comum a narrativa de famílias italianas que abrigavam os brasileiros, compartilhando o que tinham na mesa, rezavam o terço juntos."
"Outra coisa é a facilidade da língua. De todo o contexto do 5º Exército (americano, ao qual a FEB se juntou) e seus aliados, um grupo extremamente multicultural - com indianos, poloneses, neozelandeses, americanos, ingleses, canadenses - a única língua neolatina é o português. O entendimento foi facilitado por essa raiz comum na língua."
As composições próprias, segundo Mariano de Carvalho, em sua maioria "são músicas humorísticas, ironizando os alemães ou louvando as batalhas que fizeram". Dessas, ele destaca Onde Vi Muito Tedesco , uma embolada que descreve passo a passo a tomada de Monte Castello. "É uma música fantástica. Narra detalhadamente as linhas de defesa, o avanço da tropa, a aviação 'que criou muita confusão', o Major Syzeno Sarmento, comandante de um os batalhões... e assim vai."
As exceções são O Morto Vivo , uma surreal conversa entre um soldado e um cadáver, o emocionante samba Lembrei ('Se algum dia eu voltar/ jamais eu hei de pensar/ nas crises que eu passei/ pela vitória da pátria que tanto amei/ E será nobre dizer/ quando meu filho crescer/ a história de seu pai/ que com muito sacrifício/ buscou em seu benefício/ a vitória e a paz...), composto por um soldado morto em Monte Castello, Alcebíades Sodré, e apresentado pelo grupo de jazz da FEB no show de variedades em Alessandria.
"É um samba bem dramático, dolente, como se (o autor) estivesse prevendo que fosse morrer", diz Mariano de Carvalho.

Menosprezo

Os especialistas ouvidos pela BBC Brasil acreditam que essas gravações podem ajudar a reverter o que Mariano de Carvalho chama de "tendência a menosprezar a participação brasileira na Guerra".
Francisco César Ferraz diz que essa reversão já está em curso há alguns anos, e que as gravações "vêm em hora oportuníssima".
"Durante muito tempo, a historiografia universitária, que é a que dita os tópicos que serão valorizados (no ensino escolar de História do Brasil, por exemplo), desprezou a participação brasileira na Segunda Guerra."
Uma explicação para esse "desprezo" seria o fato "de parte da cúpula do golpe de 1964 ter pertencido à FEB". "Há essa associação, a meu ver errada, entre militares da FEB e militares que patrocinaram o regime militar. Na FEB havia de tudo. Havia células comunistas dentro da FEB. Dois dos dirigentes nacionais do PCB pertenceram à FEB, Salomão Malina e Jacob Gorender."
"No últimos dez anos houve um volume crescente de interesse pela participação na FEB e na FAB (Força Aérea Brasileira, que também esteve na Itália). E isso começou a repercutir no material didático. O número de documentários sobre a FEB e a participação do Brasil na Segunda Guerra aumentou bastante."
"Provavelmente é uma questão geracional. A geração mais jovem não tem o ranço, aquele rancor contra as Forças Armadas, da geração anterior."
Um exemplo da retomada das produções sobre o assunto são os livros ( 1942: O Brasil e sua Guerra quase Desconhecida eMinha Segunda Guerra ) e documentários (1942: O Brasil e sua Guerra quase Desconhecida Um Brasileiro no Dia D O Caminho dos Heróis ) de João Barone, baterista dos Paralamas do Sucesso, que se interessou pela Segunda Guerra Mundial em parte por seu pai ter sido pracinha.
"Todo mundo que toma conhecimento desse assunto fica surpreso, impressionado com o que aconteceu, com os fatos que levaram o Brasil a entrar na guerra, se comove e se emociona", conta.
Quando conversou com a BBC Brasil, Barone ainda não tinha ouvido as gravações de Hallawell - das quais conhecia apenas "algumas coisas que circulavam pela internet, aquela gravação do Hino Nacional sendo cantado em Pisa, algumas músicas".
Mas disse que "está todo mundo curioso para ouvir isso, é um material preciosíssimo".
A participação na Segunda Guerra e o contexto em que ela se deu "foi uma experiência tão valiosa do nosso povo", ressalta.
"É muita coisa interessante que ajuda a explicar o Brasil de hoje."

Experiência e espírito de corpo

De fato, é difícil não se surpreender com a jornada dos pracinhas e como ela se encaixa na história recente do país. A aproximação com os EUA se consolida durante a guerra, com os acordos entre Getúlio Vargas e o então presidente americano, Franklin D. Roosevelt.
O Brasil permite a instalação de bases militares (notadamente em Natal), promete fornecer munição e borracha e envia soldados para lutar contra os alemães. Em troca, os EUA bancam a criação da Companhia Siderúrgica Nacional com a construção da usina de Volta Redonda, o "marco zero da nossa industrialização", como diz Barone.
Além disso, os EUA treinaram e armaram os soldados brasileiros na Europa - ajudando, talvez involuntariamente, a criar o que muitos viram como um "monstro" indesejado no Brasil.
Ao final da guerra, os mais de 24 mil expedicionários compunham uma força militar sem rival no país. Tinham experiência de combate, armas e um invejável espírito de corpo.
Não à toa, foram desmobilizados ainda na Europa. Após os desfiles no Rio de Janeiro, onde foram saudados como heróis, tiveram de retornar imediatamente às vidas que tinham antes. Francisco Ferraz explica que havia um grande receio no país, tanto no governo como na oposição e nos quartéis, com o possível engajamento dos pracinhas nos eventos políticos do país.
"Eles queriam despolitizar os pracinhas o quanto antes. A história já havia dado os exemplos dos soldados russos que voltaram da Primeira Guerra e acabaram apoiando os bolcheviques, e dos militares alemães que retornaram da mesma guerra e moldaram as bases do Partido Nazista."
"A FEB teve células comunistas", lembra Ferraz. "Vargas tinha promovido uma abertura no fim de seu governo. Ele não apenas libertou líderes comunistas como (Luis Carlos) Prestes, como também permitiu a legalização do Partido Comunista."
"Era um clima político bastante conturbado. E nos quartéis, os oficiais que haviam ficado no país receberam com hostilidade os que voltaram condecorados da Itália. Eles temiam ser preteridos por oficiais da FEB. A cúpula militar também não ajudou. Muitos ex-combatentes foram transferidos para bases distantes."
Outra história pouco conhecida é a dos problemas de adaptação que muitos ex-combatentes sofreram. Muitos voltaram com traumas e neuroses e tiveram grande dificuldade para retomar suas vidas. O governo prestou pouca ajuda - ao contrário do que ocorreu nos EUA, onde houve um plano de reintegração com vários tipos de apoio aos soldados que regressaram da guerra.
Logo esquecidos - e, aos poucos, perdendo cada vez mais espaço nos livros de História do Brasil -, os pracinhas mantiveram acesa a chama do espírito de corpo com associações de veteranos. Essas foram fundamentais na luta por benefícios como uma pensão, aprovada apenas em 1988 - 43 anos depois do retorno -, chegando tarde demais para muitos ex-combatentes.
Com agradecimento especial à Embaixada do Brasil em Londres, que guardou parte dos arquivos usados no documentário.